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Lombalgias - dimensão do problema

Podemos afirmar que os sintomas relacionados com o desconforto lombar se iniciaram com o desenvolvimento da locomoção bipedal no homem, isto é, com a aquisição da posiçao erecta e bípede. Em termos epidemiologicos está descrito que nos países industrializados essa patologia afecta uma elevada percentagem da populaçao produtiva, resultando em grandes niveis de absentismo e elevados custos económicos. 

Entre 1967 e 1987 a incapacidade para o trabalho atribuivel à lombalgia aumentou 2500% nos Estados Unidos da America. Estudos realizados na populaçao Sueca apontam para um aumento da ordem dos 4000%, num perido de 30 anos. Custa a acreditar que estes notáveis aumentos percentuais se fiquem a dever a mudanças bruscas do estilo de vida ou a uma maior sobrecarga laboral. Na realidade, nos ultimos anos temos vindo a assistir, nomeadamente nos países industrializados,a uma considerável melhoria na qualidade de vida, no dominio laboral e do lazer. No entanto, com o advento Saúde Ocupacional e a maior observância da legislaçao laboral relacionada com a saude e bem estar, desenvolveu-se a noçao da necessidade de vigilancia e tratamento dos desconfortos provocados pela actividade laboral, cuja observância passa, invariavelmente, pelo afastamento do trabalhador do local de trabalho, ainda que temporariamente. É obvio que o desforto lombar existe tanto nos países industrializados como nos não industrializados. Nestes porém, é vulgar prolongar a actividade muito para alem do inicio das queixas, podendo ser este um dos factores responsáveis pelos menores niveis de absentismo. Aproximadamente 80% da populaçao, quando inquirida especificamente, refere a existência de sintomatologia dolorosa da coluna. Destes, 40 a 50% referem pelo menos um episodio de ausência ao trabalho. Apesar desta prevalência, um estudo baseado nos dados do "Swedish Sick Insurance Registry", onde constam todos os casos declarados de impedimento da actividade laboral por lombalgia, o tempo de recuperação e regresso ao trabalho pode considerar-se rápido para a maioria dos individuos. 

Cassificação das lombalgias

 As lombalgias podem ser comuns ou sintomáticas. As primeiras são muito frequentes e podem ficar a dever-se, entre outras causas, a hérnias discais (maior causa de lumbago no adulto jovem), a patologias das interapofisárias posteriores (mais frequentes nas mulheres após os 60 anos), a discartroses, a causas musculares (maior incidência nas mulheres jovens) e traumatismos previos ou a situaçao de canal lombar estreito. As lombalgias sintomáticas sao geralmente secundárias a patologia tomoral (benigna ou maligna), inflamatoria (por exemplo espondilartropatias seronegativas), infecciosa (por ex. tuberculosa) ou metabólica (por ex. fracturas osteoporóticas). 

A lombalgia comum pode ocorrer nas formas agudas (lumbago), complicada ou não de ciática e crónica, com carácter mecânico, localização baixa, sem rigidez importante e com dor ligeira à mobilizaçao. Os elementos clinicos que nos fazem suspeitar da lombalgia sintomatica sao o aparecimento agudo em individuos idosos, a topografia alta, a rigidez raquidiana marcada, a exacerbaçao ou ocorrencia nocturna exclusiva, a rebeldia ao repouso ou a tratamentos sintomáticos, a alteraçao do estado geral e eventualmente os antecedentes pessoais (por ex. tumorais ou infecciosos). A causa precisa da maioria das lombalgias comuns nao pode ser identificada. Entre todas as estruturas que têm sido responsabilizadas pela dor lombar (por ex. cápsula das facetas, osso, fáscia e musculo), o anel exterior do disco parece ser a sua origem mais frequente. O grande desconhecimento acerca da fisiopatologia da lombalgia comum implica que o seu tratamento nao se possa basear na resoluçao dos fenomenos que lhe dao origem.

Factores de risco

A identificaçao de "factores de risco", que pode atraves da sua eliminaçao levam à prevençao da afecçao, é por isso uma importante e eventualmente eficaz via de abordagem. O fumo do cigarro motiva por um lado a degeneraçao discal e por outro aumenta a sensibilidade à dor. As vibraçoes corporais totais, principalmente se aplicadas na posiçao sentada e em assento mole representam tambem um factor de risco. O trabalho físico pesado, a posiçao de trabalho com o tronco em flexao anterior, as profissoes estáticas, a torsao e outros movimentos complicados do tronco sao tambem factores favorecedores da lombalgia comum. As dificuldades economicas, a desmotivaçao pelo trabalho, os conflitos laborais e a personalidade histérica tambem pertencem a este grupo de factores. Algumas outras actividades de lazer, como jardinagem ou bricolage, ou desportivas, como o futebol, rugby, ténis, windsurf, etc., associam-se com frequencia à ocorrencia de lombalgia. A obesidade, a má condiçao muscular geral e ao nivel dos abdominais, extensores da coluna e quadricipetes, sao outros factores de risco maior. 

Papel da actividade física

Está demonstrado que o exercicio é importante para a manutençao da homeostasia normal do disco e que a falta de movimentos tem um efeito nocivo na sua nutriçao. No entanto, estudos de experimentaçao animal descrevem efeitos nocivos do exercicio. É necessário saber que tipo, duraçao e intensidade de exercicio geram beneficios e qual a distribuiçao ideal de carga sobre o disco. Existe uma extensa bibliografia que referencia os beneficios de uma pratica fisica regular na melhoria da condiçao fisica, nomeadamente a nivel musculo-tendinoso, podendo tal facto ser atribuido ao efeito do treino sobre a mineralizaçao ossea, sobre o osso esponjoso, e sobre as fibras de colagénio com implicaçoes no tecido conjuntivo. Tais constataçoes sao menos evidentes ao nivel dos discos intervertebreais, facto confirmado em estudos animal e em humanos. 

Na realidade, apesar das dúvidas subjacentes ao exercicio fisico, existe consenso quanto à necessidade de implementaçao de programas de actividade fisica, contraindicando-se a imobilizaçao, mesmo em fase aguda, a qual nao deverá ultrapassar as 48 horas. As implicaçoes negativas da imobilizaçao estao profundamente documentadas e prendem-se com perda dos niveis de força, resistencia e flexibilidade.

Higiene postural

 O exercicio físico de caracteristicas aerobias condiciona melhorias da resistencia muscular. Os individuos com fracos indices de condiçao fisica têm  tendencia a fatigar-se precocemente, nomeadamente nas tarefas repetitivas. Tal facto pode ter importantes implicaçoes na actividade laboral, levando nao raras vezes à adopçao de posturas incorrectas.  

Para a lombalgia aguda, os exercicios lombares evidenciaram ser um tratamento eficaz, enquanto que o repouso na cama, superior a dois dias, aumenta o risco de cronicidade. Deve por isso manter-se o individuo activo quanto possivel e promover o seu regresso ao trabalho. Mesmo doentes com hérnia discal aguda podem melhorar com programas de exercicio. Alguns estudos apontam para um eficácia idêntica à da cirurgia.  Um programa de exercicio físico realizado sob uma prescriçao correcta e que nao ceda à dor, pode, no mínimo prevenir a cronicidade e o absentismo. Vários trabalhos evidenciaram que a lombalgia crónica pode ser tratada com exercicios de dominante lombar. Problemas psicologicos e comportamentais podem estar tambem associados com este tipo de lombalgias. 

Os exercicios mais aconselhados para as lombalgias parecem depender da intensidade, da frequencia e duraçao. Assim os esquemas de treino de carga elevada realizados duas vezes por semana apresentam resultados positivos em um a três meses. Quando efectuados diariamente, podem ser benéficos a partir da terceira semana.

Individuos que participam em programas regulares de condiçao fisica sao invariavelmente mais preocupados com a sua saude, constituindo uma populaçao onde o tabagismo e a obesidade sao menos frequentes, factores estes que têm sido associados ao desconforto lombar.

 

     in "Actividade física e medicina moderna" de Themudo Barata 

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